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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Exposição no SESC CARMO

Veja a exposição de cordel que trata do tema ALIMENTAÇÃO. Está muito bonita e muito visitada. Acontece no SESC CARMO na capital paulista, na Rua do Carmo 147, região da Sé, centro. O título da exposição é sugestivo: "POESIA, PÃO DE POETAS: PEDACINHOS SABOROSOS DA LITERATURA DE CORDEL". Criei a exposição para abrir o seu apetite a ler no futuro meu livro sobre o tema.
Faço uma pesquisa em folhetos de cordel para encontrar versos que tratam de alimentação, buscando material para um livro sobre o assunto. A exposição mostra o que tratarei no livro.
Possuo uma coleção de folhetos de cordel (que se notabiliza pelo volume de exemplares originais, e não pelo tamanho da coleção) que se amplia todo dia, por isso convoco os autores cordelistas e criadores de xilogravuras, que me enviem suas criações. Como pesquisador interessado em literatura popular, exploro alguns temas para meus futuros livros dentro dessa literatura tão fantástica e farta. No trabalho com o livro "A MEDICINA POPULAR NO CORDEL: MEIZINHAS, DOENÇAS E CURAS", pesquisei em 3.000 folhetos para chegar a um material adequado à confecção do livro. Para escrever essa próxima obra pretendo ler um volume maior de folhetos e conhecer o trabalho de um número ampliado de poetas, para ter uma boa visão do que pensam sobre o tema pesquisado.
Você poeta criador de folhetos de cordel mande para mim o que criou, porque meu trabalho é dinâmico e outros temas me interessam pesquisar no futuro, para novos livros, tais como: religiosidade, misticismo, cangaço, valentia, poder, preconceito, meio ambiente, social, machismo, coronelismo e tantos outros. Vejo nessa literatura um armazém onde é guardado a memória popular brasileira e a verdadeira cor do Brasil.
Você interessado em ver a exposição, saiba que ela ficará no SESC CARMO até dia 30 de dezembro de 2011. E você que é poeta que cria folhetos de cordel, ou xilogravuras, se tiver interesse em colaborar com minhas pesquisas pode enviar suas criações para mim. Mantenha contato comigo que oriento para onde mandar o material. Eu agradeço.

Jorge Mello
Fones: (11) 5612 2390 /  (11) 9311 0497

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Atividades

  • Estive em Fortaleza por um período de 10 dias, motivado pelo aniversário de 90 anos de meu pai. Vi amigos e, claro, procurei comer o que de melhor a capital alencarina oferece.
De volta ao batente, estou a todo vapor no trabalho, porque sou O CURADOR de uma exposição no SESC do Carmo em São Paulo, capital, sobre o tema ALIMENTAÇÃO no CORDEL.
Fui escolhido por ter escrito o livro A MEDICINA POPULAR NO CORDEL: MEIZINHAS, DOENÇAS E CURAS. A lieteratura de cordel é muito rica e nos oferece oportunidades de conhecer e trabalhar os mais variados temas: o misticismo, a religiosidade, o poder, o cangaço, a fantasia, a valentia, o preconceito dentre tantos outros temas.
A alimentação no cordel é um tema instigante. Ao ser contratado para essa curadoria e para a exposição, caí de boca no trabalho. Passei a ler os folhetos de meu acervo na procura do tema. Não pense que é fácil. Tenho que ler uma quantidade enorme de folhetos para saber se o tema é ali tratado e encontrando, separar esse folheto dos demais para no final após juntar um material suficiente, imaginar a exposição.
Será um evento muito grande: haverá capas de folhetos que serão projetadas nos ambientes internos da unidade do SESC do Carmo, como paredes, mesas de leitura e outros espaços. Haverá uma exposição de folhetos originais que tratam do tema, e também de xilogravuras originais. A unidade providenciará plaquetas onde serão impressos os textos e xilogravuras das capas que ficarão pendurados no teto de maneira que o interessado possa ler e admirar a beleza das capas, como forma de facilitar a leitura e a admiração das xilos pelo frequentador da unidade. Também haverá novidades que facilitem a leitura dos folhetos na biblioteca da unidade.
A exposição se iniciará no dia 13 de outubro próximo e ficará até final de dezembro.
Procurei mostrar o tema com a maior clareza explorando os versos criados pelo poeta autor dos folhetos, assim como apresentando o melhor de suas capas com o trabalho de xilogravuras e desenhos, tão próprios dessa literatura popular.
Espero que você leitor compareça e veja o trabalho.
Um abraço e deixe eu trabalhar, que tenho muito o que fazer para dar conta dessa empreitada.
Jorge Mello

segunda-feira, 14 de março de 2011


                                        APRENDENDO CORDEL E REPENTES

       O fato de incríveis aventuras aparecerem na forma de versos facilita a que o homem comum o decore e os reproduza de memória. Andei por muitas fazendas no interior do Piauí quando criança, isto na década de 50 e presenciei esses momentos. Na localidade chamada Araçás, perto do Município de Batalha-PI uma fazenda onde passava as férias,  era comum nas noites de trabalho no fabrico da cajuína, ou na época das farinhadas, das moagens, ou quando as mulheres reuniam-se para fabricar o doce de buriti,  os homens, numa grande roda, ao sabor de umas biritas, versejarem os mais variados “romances”, quase todos ditos “dicó” (de cor). Poucos eram os que pegavam os folhetos e faziam sua leitura cantada porque os tinham de memória. Assim ouviam-se as mais belas aventuras, cantadas em melodias tristes, monocórdias, hipnóticas, que nunca me saíram da memória e que hoje aplico quando estou a improvisar versos, porque já expliquei, que tenho essa habilidade. Crio versos na hora, sobre os mais variados temas e nas dezenas de formas próprias a improvisação (martelos, glosas, sextilhas, redondilhas e moirões), assunto que daria um novo livro. Aquela foi a escola mais importante para a minha formação de cantador/repentista e compositor, trabalho que sempre exerci por toda a vida.
     Quando criança, embora freqüentasse a escola, tinha obrigações como ajudante de bodegueiro na bodega de meu pai no período em que morávamos em Piripiri no Piauí. Esse trabalho me fazia ficar grande parte do dia  a ouvir os vendedores de romances, assim como os cegos com suas rabecas e ainda presenciava os encontros de repentistas anônimos na porta do mercado. A bodega de meu pai, seu Raimundo Borges, funcionava na praça do mercado, frente ao quiosque de dona Tetê, onde toda essa mágica acontecia. Forasteiros misturavam-se a cegos pedintes e a versejadores anônimos, hipnotizados pelo cheiro da panelada servida em pratos fundos de alumínio. Passei minha infância inteira rodeado destes fatos, dessas figuras, com suas histórias e melodias maravilhosas. Hoje sei que aquele canto do cego para adquirir algumas esmolas,  assim como o canto desse outro personagem que é o vendedor de folhetos de cordel têm a ver com as notas do canto gregoriano e do cantar religioso dos árabes.
     Vez por outra, aparecia um cordelista mais endinheirado que armava um equipamento de som conhecido como “amplificadora”, que emitia, num tom cheio de ruídos e na freqüência de um médio anazalado, palavras rasgadas, roucas, pelo uso diário de sua voz no trabalho de vender libretos nas feiras. Como ele mesmo dizia: “Vou cantar folheto”. E preparava a cena, armava alguns barbantes entre dois paus e o restante espalhava os folhetos sobre uma esteira de palha e e na tradição oral das cantorias improvisadas, cantava os folhetos, lendo-os encantando os presentes com as histórias de amor, valentia ou grandes aventuras do cangaço, ou vidas de santos, de guerreiros ou de personagens imaginários, que simbolizasse a  eterna luta do bem conta o mal. Diariamente eu via o vendedor de folhetos chegar, arrumar os folhetos pelo chão, e montar uma geringonça para ampliar a voz. A parafernália era mantida por uma bateria de caminhão, posicionada lá distante, frente para ele, um autofalante, ligado por um fio que ia até ao microfone que portava amarrado a altura de sua boca, assim, levava a mensagem a toda a praça do mercado. Essa técnica de manter o microfone amarrado ao próprio corpo facilitava o serviço de vender, receber o dinheiro e dar troco aos muitos fregueses que corriam para limpar o estoque de livrinhos. Ele sabidamente abria para ler,  sempre o folheto mais empolgante: Prisão de Oliveiros, Encontro de Oliveiros com Ferrabrás, O valente Zé Garcia, Princesa Megalona, Pavão Misterioso  e ao fazer a leitura, parava no melhor da história, deixando a platéia ansiosa por conhecer o final. O cordeleiro (aquele profissional apenas vendedor de cordel) ou o cordelista (aquele que cria e vende histórias publicadas em cordel), sem terminar a leitura da aventura  que apresentava, fechava o libreto e sem mais nem menos, abria inteligentemente, outro dos folhetos e iniciava a leitura cantada de outra história. Com esse ato, investia na curiosidade da platéia, que sedenta por conhecer o final da trama até então apresentada, adquiria o folheto abandonado, para lê-lo em casa. Com essa estratégia, o folheto lido recentemente alcançava vendagem de limpar o estoque, significativa, vindo a se esgotar. Todos os presentes desejavam saber como terminava a aventura. Então, após comprar o folheto,  corriam para suas casas com a finalidade de ler o final e compreender toda a trama. E assim se revezavam os fregueses. Quem ia passando já ouvia o início da história seguinte, parava e com ele acontecia o mesmo que com o ouvinte anterior, porque o vendedor repetia a mesma atitude. Ora, muitos dos libretos de minha coleção foram adquiridos naquele tempo. Nunca os joguei fora. Sempre fui um garoto que guardava tudo. Um colecionador. Colecionei gibis, flâmulas, carteiras de cigarro vazias, moedas, selo e hoje eu entendo o ouro que guardei quando vejo meus folhetos de cordel originais adquiridos nas feiras do meu sertão desde a minha infância.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Folclore e Cordel

FOLCLORE    

     Em todos os lugares do mundo, onde tem grupos humanos, há um patrimônio de tradições que são transmitidas oralmente e conservadas pelos costumes. É o que chamamos de FOLCLORE.
     Essa palavra foi criada pelo arqueólogo inglês, William John Thoms ( 1803-1885 ). Ele juntou duas palavras: folk, que quer dizer povo, nação, com a palavra lore, que quer dizer conhecimento, sabedoria. A palavra  folk-lore,  significava assim, a sabedoria do povo.
     Haverá sempre um folclore onde estiver o povo. Houve um folclore dos antigos cavaleiros andantes medievais, como haverá um dos astronautas. Houve um folclore dos índios caçadores de cabeças, como  há um dos motoristas de táxi. O folclore é mantido pela mentalidade do homem. Por aí vemos  que o folclore é uma cultura viva, diária, e útil. Por isso aparecem canções, lendas, histórias, danças,  composições coletivas representando a criação  folclórica de nosso povo. 
     O fato folclórico traz consigo as características do popular, do anônimo e do tradicional, transmitido quase sempre de forma oral.

O CORDEL

     No Nordeste do Brasil, é muito comum se ver nas feiras, bancas onde são vendidos pequenos libretos escritos em versos, contando histórias fantásticas sobre heróis e santos, ou mesmo reportagens sobre os acontecidos locais. A esses livrinhos chamamos CORDEL. Ganhou esse nome, por ser encontrado muitas vezes pendurados em cordões, como forma de apresentá-los à venda.
     É a literatura do povo, consumido por uma gente simples e humilde. É lendo o cordel, que essa gente  leva as novidades da cidade até ao sertão. O cordel substitui  o jornal. Também substitui a escola, porque muitos aprenderam a ler soletrando os versos desses livrinhos. 
     Para vendê-los, os cordeleiros usam de vivacidade. Escolhem um dos libretos e fazem uma leitura cantada, numa melodia bonita e penosa. Esse canto reúne o povo  para ouvir a história. Quando chegam na melhor parte fecham o livrinho e começam  um outro. Não preciso dizer, que morrendo de curiosidade, os ouvintes compram o cordel interrompido, para lerem em casa. Assim é feito com a leitura de cada livrinho, vendendo a todos.
     Os criadores dessas histórias, são pessoas analfabetas ou semialfabetizadas, como os consumidores, mas de muita sensibilidade, verdadeiros poetas do povo.
     Vejamos alguns exemplos de cordel:

1- DEBATE DE LAMPIÃO COM SÃO PEDRO (de José Pacheco)


     José Pacheco da Rocha tem uma origem polêmica. Para alguns, ele nasceu em Porto Calvo, Alagoas, mas para outros ele é de Correntes, Pernambuco. Nasceu em 1890 e faleceu em 27 de abril de 1954 em Maceió, Alagoas. Escreveu uma infinidade de folhetos, muitos deles no gênero do gracejo. Principais obras:

-          A Intriga do Cachorro com o Gato
-          As Palhaçadas de um Caboclo na Hora da Confissão
-          A Propaganda de um Matuto com um Balaio de Maxixe
-          A Chegada de Lampião no Inferno
-          Festa dos Cachorros
-          A Princesa Rosamunda ou Morte do Gigante
-          Os Prantos de Cacilda e a Vingança de Raul
E centenas de outros.

2 – HISTÓRIA DE RAIMUNDO JACÓ ( Origem das Missas do Vaqueiro) de Pedro Bandeira
3 -  VAQUEJADA PADRE CÍCERO – III VAQUEJADA DE JUAZEIRO DO NORTE –Pedro Bandeira

     Pedro Bandeira Pereira Caldas  nasceu a 1º de maio de 1938, no sítio Riacho da Boa Vista no município paraibano de São José de Piranhas. Aos 6 anos já fazia versos, aos 19 tornou-se cantador profissional. Em 1961 mudou-se para Juazeiro do Norte, onde reside até hoje. É autor de mais de  mil folhetos e de centenas de poemas e tem oito livros publicados e seis LPs gravados. É licenciado pela Faculdade de Filosofia do Crato e Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Crato. Foi vereador em Juazeiro do Norte. Radialista. Pedro Bandeira – Príncipe dos Poetas Populares do Nordeste.

4 – O MONSTRO DO RIO NEGRO de  João Martins de Athayde

    Nasceu  no dia 24 de junho de 1880, no lugar chamado Cachoeira de Cebola, Município do Ingá, Estado da Paraíba. Faleceu em Pernambuco, em 1959. Foi o  pioneiro na editoria de cordel. Em 1920 adquiriu grande parte da propriedade literária de Leandro Gomes de Barros, então falecido, e publicou-a durante trinta anos  assim como a sua própria obra e de vários outros poetas. Em 1950, vendeu todos os seus direitos autorais a José Bernardo da Silva em Juazeiro do Norte. Hoje todos os direitos dessas obras, pertencem a Academia Brasileira de Cordel.
     Pequena mostra da vasta obra desse poeta:

-      História da Imperatriz Porcina
-          O Homem que Nasceu Para não Ter Nada
-          Meia Noite no Cabaré
-          A Lamentável  Morte  do Padre Cícero Romão Batista o Patriarca do Juazeiro
-          A Morte de Lampeão
-          Peleja de João Athayde com João Pelado
-          A Pérola Sagrada

5 - REI ZUMBI, O HERÓI DO QUILOMBO DE PALMARES de Franklin Maxado Nordestino

     Maxado Nordestino nasceu em Feira de Santana, a 15 de março de 1943, formou-se em Direito pela Universidade Católica da Bahia em 1966. Graduou-se também em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia em 1965. Veio para São Paulo em 1972 e trabalhou na “Folha de São Paulo”, “Diário do Grande ABC” e “Diário Popular”. Em 1995 resolveu dedicar-se exclusivamente à poesia popular. Já escrevia cordel desde 1966 quando publicou “Album de Feira de Santana” e “Protesto à Desuman – Idade” em 1975, ano em que escreveu o poema intitulado “Paulista virou tatu viajando pelo Metrô”, que enviou ao poeta baiano Rodolfo Coelho Cavalcante, que o colocou em métrica de Cordel e o editou, vendendo mais de vinte mil exemplares. É um autor de quase cem títulos. Atualmente reside em Feira de Santana.

Alguns títulos do autor:

-          Profecias de Antonio Conselheiro ( O sertão já virou mar)
-          Maria Quitéria, Heroína Baiana que foi Homem
-          A Feira de Feira de Santana já vai sair do meio da rua
-          O Sapo que Desgraça o Corinthians
-          O Frio de São Paulo está Desmoralizado
-          O que o Trabalhador quer
-          O Nordestino no Sul
-          Diário do Crioulo Doido
-          A Formiga e a Cigarra: a velha e nova fábulas


OBSERVAÇÕES: 

     Veja que o libreto com a xilogravura de Walderedo onde aparece um cangaceiro(Lampeão) e São Pedro, tem na capa o título de Chegada de Lampião no Céu, para atingir  maior vendagem, dado ao sucesso do libreto do mesmo autor, intitulado “Chegada de Lampião no Inferno”, que é um dos maiores fenômenos de vendas. Essa artimanha foi planejada pelo editor dessa tiragem, pois a estória criada por José Pacheco tem o título que aparece na primeira página, que é o citado: “Debate de Lampião com  São Pedro”.
      Outra observação sobre este libreto, é que aparece  outra estória: “A B C do Amor” ( também citada na capa). Não quis enviá-la, apesar da publicação num mesmo libreto, copiei apenas a parte que interessa ao projeto.

     No libreto HISTÓRIA DE RAIMUNDO JACÓ, acontece a mesma coisa. Na capa vemos “MISSAS DO VAQUEIRO – Da primeira a terceira”, que são versos sobre o grande acontecimento religioso criado por Luis Gonzaga, motivado pela morte trágica de Raimundo Jacó, um vaqueiro muito amigo do Rei do Baião. O autor neste mesmo libreto, conta a história das primeiras três missas, indicando as personalidades e os fatos que tornaram o evento tão importante no calendário das festas da Paraíba. Hoje a Missa do Vaqueiro já viaja por todo o Brasil e no ano passado foi celebrada no Anhangabaú aqui na capital. Os padres e ajudantes, vestidos de chapéu de couro e gibão, trajes típicos do vaqueiro, onde todas as músicas que acompanham a liturgia, são cantos de aboio.
     No libreto aparece na primeira página o título “Missas do Vaqueiro”, mas o texto trata da vida do referido martir. A primeira das missas, foi aquela rezada de corpo presente quando da morte de Raimundo Jacó. Não me interessei enviar a estória das outras missas.

     Sem mais para o momento

                                                  Jorge Mello

O Repente: no Nordeste do Brasil, na América andina e no Caribe

O REPENTE
(No Nordeste do Brasil, na América andina e no Caribe)
Jorge Mello

O cantador repentista, assim como o criador da literatura de cordel, está hoje muito ligado à cultura nordestina. Mas sua origem está na Idade Média. Ainda hoje, esse homem canta a história da região, suas lendas, e mistura os personagens reais de sua terra, com personagens medievais.  Antigamente a maioria dos  grandes cantadores nordestinos era analfabeta.
Todos eles têm muito orgulho de sua profissão. São figuras curiosas.  Vêm de pequenos plantadores do sertão. Estão entre os cegos, os mendigos e os aleijados. Nunca recusam um desafio.  Caminham léguas para cantar ante um público rústico e diante deste, exibir suas qualidades, sempre muito aplaudidas e admiradas.
Quando aparece a oportunidade de se exibirem numa cantoria, esses homens são capazes de abandonar a tudo que não seja sua viola. Deixam  seus afazeres na roça, nos pequenos comércios e saem como verdadeiros  Quixotes palmilhando o sertão ardente procurando  aventuras.  Vivem do que tiram nas feiras, seja ganhando por seus versos nos desafios,  ou vendendo folhetos de cordel. Nesses ambientes, são figuras  indispensáveis. Quando estão em desafios, improvisam versos que empolgam a suas platéias. Os versos mais felizes desses embates, são logo repetidos pelos membros da assistência, são conservados na memória coletiva. Essa literatura oral é riquíssima.
Na Idade Média, o gênero que mais parece com o nosso desafio, é o tenson. Esse gênero era verdadeiramente a batalha poética entre os improvisadores.  Passou para a península castelhana  com seus ímpetos e delicadezas, como escreveu Câmara Cascudo.
Esses homens aparecem também por toda a América espanhola, onde as grandes  payadas de contrapunto são verdadeiras batalhas. Um duelo poético que pode durar vários dias e noites. Durante o embate, os contendores, esquecem toda a modéstia ao falarem de si próprios, com a finalidade de humilhar o oponente. A característica dos seus versos e do próprio folclore sul-americano saem duma razoável linha de modéstia. Santos Vega, considerado o máximo dos payadores argentinos, é apontado como imodesto ao anunciar-se.
“ Soy yo el Santos Vega
Aquél de la larga fama...”

Vendo-se o poetário Venezuelano aparece:
“ Yo soi el Ramon Palacio,
el que vive en Yarumal;
Yo soy el que me paseo
en el filo de un puñal.

Na Colômbia:
Me llaman el tantas muelas
aunque no las he mostrao,
y si las llego a mostrar
se há de ver el Sol clipsao,
la luna teñida en sangre,
los elementos trocaos,
las estrelas apagadas
y el mesmo Dios almirao...
O desafio  aparece sempre em sextilhas, antigamente aparecia em quadras. Devo lembrar que não são as únicas formas usadas. Para a exibição de sua agilidade mental, o cantador repentista trabalha em muitas outras  formas ou gêneros, mas em duelos de pouca duração. Isto por causa da dificuldade exigida por elas. Eu como sou repentista,  me sinto bem duelando em redondilha maior, ou seja,  uma estrofe formada por sete versos de sete sílabas, com rimas ABCBDDB.
Câmara Cascudo diz  que essas outras formas “ pertencem mais à classe das  curiosidades que ao molde clássico do desafio.”
Também usada como desafio, e que aparece por toda a América espanhola, está a ligeira. Trata-se de uma forma muito simples. Cada cantador improvisa dois versos, canta o estribilho “ ai,d-a,dá”. Seu antagonista responde cantando os outros dois versos e pronto termina a quadra rimada. Essa fórma ABCB por ser muito simples, é monótona.
No Chile a ligeira chama-se Palla a dos razones. Veja uma passagem entre Clemente Ruiz e José Tejada:
Ruiz: - Eres um tejo, Tejada,
pero yo, soy un demonio.
Tejada: - No importa que seáis el diablo
me ayudará San Antonio.
Tejada: - Ya que sois tan caballro,
dime cómo era tu padre.
Ruiz: - Si quieres saber cómo era
pregúntaselo a tu madre.
Afirma Câmara Cascudo, que “ no foloclore poético sul-americano, pelo que  leio no magnífico livro do poeta colombiano Ciro Mendia ( “Em torno a la Poesia Popular”. Medellin, Colômbia, 1927) a maneira dos contrapuntos, correspondentes aos nossos desafios, é idêntica. Em todos os países sul-americanos os guitarreros ou payadores cantam a trova ( quadra) e as sextilhas. “
Em trovas:
Arriba mano Manuel
busté ques tan buena ficha,
bregue a sostener la trova
pa que ganemos la chicha.

Pa que ganemos la chicha
No se necessita tánto,
Canto se me da la gana,
y se no me da, nocanto.

Em sextilhas, veja versos de El Moreno numa resposta a Martins Fierro, que lhe perguntara o que era a Lei:
La ley es tela de araña,
en mi ignorancia lo explico,
no la tema el hombre reico,
no la tema el que mande,
pues la ruempe el bicho grande
y sólo enrieda a los chicos.

Es la ley como la lluvia,
nunca puede ser pareja,
el que la aguanta se queja
pero el assunto es sencillo:
la ley es como el cuchillo:
no afiende a quien lo maneja.

Posso afirmar que essas formas chegaram da Ibéria e tomaram conta de todos os lugares e cada povo cultivou as que mais apreciaram. Emigraram também portanto para a América Central e para Cuba, Venezuela, Colômbia e Bolívia. Aparecem com o nome de corrido, espécie de rimance que as vezes toma a forma de desafio. Tem a pallada no Chile e payada na Argentina e no Uruguai.
Como já falei, o nosso desafio é o mesmo que a payada de contrapunto. Vejamos nos versos de Martin Fierro:
A un cantor le llamam bueno
cuando es mejor que los piores
y sin ser de los mejores
encontrándose dos juntos
es deber de los cantores
el cantar de contrapunto.

Sobre isso, sobre o “cantar de contrapunto” ou “payada de contrapunto” , vejamos o que diz Lehmann-Nitsche:
...payada de contrapunto. Se llama aí la lucha a guitarra y canto, sostenida por dos payadores, los que alternando, dan preguntes que el adversário tiene que contestar, como en las luchas de los trovadores medievales de los cuales los payadores argentinos son descendientes diretos. Se trata muchas vezes de un verdadero examen en ciencias naturales, historia, etc, y como en el colegio, el que más sabe, gana.
O repente aparece também no Caribe, com as características de perguntas e respostas. Ainda em castelha, aparece nos velhos “ cancioneros” a denominação “Preguntas y Respuestas”. Nada mais é do que uma espécie de diálogo entre dois cantadores. Um faz uma pergunta e o outro responde. No “Porto Rico Folk-Lore, riddles”, de número 190, aparece essa quadra em forma de “adevinhação”. No caso em questão é sobre a  cotorra, que é uma espécie de papagaio. Em  1916 há o registro da versão que se segue, uma advinha européia mas que tornou-se corrente por toda a América espanhola. Foi publicada por J. Alden Mason, no The Journal of American Folk-Lore:
Un hombre murió sin culpa,
sua madre nunca nació,
y su abuela estuvo doncella
hasta que el nieto murió.

Hoje o que sei é que o repente está presente tanto nas feiras e festas populares do nordeste do Brasil, quanto em Cuba, onde os repentistas mantém um programa na TV há mais de uma década, improvisando seus versos, não deixando com isso, morrer essa manisfestação cultural que herdamos da Idade Média.

A cor do cordel

A cor do cordel

 Jorge Mello


     Muito se tem falado de literatura de cordel, eu mesmo nesse veículo de comunicação, já falei. Pois bem, vou entrar um pouquinho a mais nesse universo, contando prá vocês algumas regras básicas para a montagem de versos.
     Na literatura popular, existem dezenas de maneiras de se juntar os versos na formação de estrofes. Veja, que popularmente, entende-se por verso, a junção de algumas linhas escritas, formando um corpo, um conjunto, uma forma. Não é bem assim que acontece. Vamos aprender corretamente: verso, é a escrita de uma linha apenas.  Criação que obedece  uma outra regra, que é a sua quantidade de sílabas. Por isso se diz: “verso de sete sílabas”. O conjunto de versos, chama-se estrofe. E um conjunto de estrofes, forma um poema.
     Então os “versos”, podem ter musicalidade diferente um dos outros. Versos de sete sílabas, de 10 silabas, de 12 sílabas também conhecidos como decassílabos, dodecassílabos etc.
     Comecemos pelas as formas (estrofes) mais simples: quadras e sextilhas. Cada estrofe dessas, é  identificada popularmente pela quantidade de  “pés”, ou seja, de quantos versos se compõe. Estrofe de quatro pés (quadra), de sete pés (redondilha maior), de dez pés (décima).  Temos então para versos e estrofes, novas denominações.
Exemplo de quadras:

Sou poeta repentista                    (A)
Pelo que falo respondo               (B)
Poetar me faz artista                   (A)
Aqui no Capão Redondo            (B)

     As quadras também são conhecidas como “trovas” e aqueles poetas que cultuam as trovas, são denominados “troveiros”. Esta quadra, tem rimas cruzadas: A B A B. É bom já dizer que as rimas podem ser cruzadas ( ABAB) e paralelas (ABBA), como seria uma quadra com rimas paralelas? Vejamos:

Trovar só me faz feliz                 (A)
Porque já entro no clima             (B)
Poeta que não tem rima               (B)
Não sabe bem o que diz.             (A)

     Nesses dois exemplos, os versos são de sete sílabas. São portanto as formas mais simples, cultuadas pelos poetas do cordel no final do século XVIII. Já no início do século passado, só se usavam na confecção dos libretos de cordel, as estrofes de seis versos de rimas cruzadas,  popularmente conhecidas como  de seis pés. Vejamos um exemplo:

Para compor uma sextilha                (A)
É simples, não desanime                  (B)
Eu me despeço, mas volto               (C)
Prá que outra vez eu rime                (B)
Pois o Rap e o repente                     (D)
Faz parte desse FANZINE.             (B)