terça-feira, 16 de setembro de 2014

Jorge Mello no jornal DIÁRIO DO NORDESTE (Fortaleza)

DISCOS
Redescobrindo a Paraíso
19.08.2014
Discos esquecidos da extinta gravadora de Belchior e Jorge Mello serão digitalizados e colocados na internet
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Um verdadeiro tesouro da música popular brasileira, enterrado em antigas fitas magnéticas e ou LPs, há décadas fora de catálogo, está prestes a ser reavido. A internet será o próximo destino de um acervo com cerca de 1 mil fonogramas, que inclui discos antológicos de Antônio Carlos Belchior, produções coletivas de artistas cearenses que se destacavam na década de 1980, e até raridades improváveis, como o disco "Sumaré", de Bernardo Neto, encartado em edição da lendária Revista O Saco.
Os fonogramas compõem cerca de 100 álbuns, entre LPs e CDs, produzido pela extinta Paraíso Discos, gravadora criada pelo próprio Belchior, em 1982, em sociedade com o advogado, arranjador, e parceiro de várias de suas canções, Jorge Mello.
A princípio, o problema era jurídico: sem o aval dos dois sócios nenhum dos álbuns que produziram poderiam ser reeditados. Ato simples, que tornou-se praticamente impossível após o isolamento que Belchior se impôs nos últimos oito anos. "Eu fui sócio do Belchior por 22 anos. Com o sumiço dele, imagina o desespero de todos nós", lembra Jorge, diante a possibilidade de ver fora de catálogo até mesmo suas próprias músicas. "Ele é o maior interprete da minha obra. Gravou mais de 20 músicas minhas. E é também meu maior parceiro, com 40 músicas juntos, das quais, umas cinco estão inéditas", ilustra.
A internet surgiu para Jorge como a milagrosa solução ao impasse. Em termos jurídicos, explica, disponibilizar os discos na web não se configura um ato de produção, e sim, de utilização, portanto, poderia ser feito sem a assinatura do músico. "A conversão para o digital só envolve direito. E isso, minha administradora pode fazer, porque ela administra direito e não produto. Isso é a diferença", detalha o músico.
Produções
No casting da gravadora - que tinha distribuição nacional, primeiro pela Odeon, depois pela Continental, Warner e Camerati - de início, estavam artistas cearenses, boa parte deles, oriundos da Massafeira Livre, encontro que mobilizou diferentes linguagens, em 1979, no Theatro José de Alencar (TJA). Lançaram pelo selo Graccho, Mona Gadelha, Antônio Brasileiro, Ângela Linhares, Pekin, Caio Sílvio, Teresinha Silveira, Lúcia Menezes, Aparecida Silvino.
"Fizemos dois discos do Lúcio Ricardo. Aproveitamos esse pessoal logo no começo e até fizemos um disco 'Pessoal do Ceará', com um outro pessoal do Ceará", lembra Jorge, sobre o disco coletivo "Aquele Flash!" (1986).
Os dois sócios também editaram seu próprios discos, como os enigmáticos "Cenas dos Próximos Capítulos" (1984) e Bahiuno (1993), de Belchior; e, de Jorge Mello, o compacto "Na Asa do Avião" (1985) e "Um Trovador Eletrônico" (1987). Também discos como "Country Beatles" (1986), do grupo Dollar Company, um dos orgulhos de Jorge. "Tenho carta do Paul McCartney, na época, autorizando a gravação das músicas. Coisa que as grandes gravadoras não conseguiram", lembra, sobre o disco que ajudou a alavancar a produção da empresa.
Estão, ainda, na relação a ser lançada na internet, títulos lançados por Jorge em outros selos, Terramarear e JMT, como os LPs "Bar da Noite" (1984) e "Marcas" (1986), de Terezinha Silveira, "Em preto e branco" (1985), de Antônio Brasileiro (1985), e os CDs "O Amanhã Será Melhor" (2002), de Iris Thompson, e "Trilha das águas" (1999), de Jairo Mozart.
"Nós encampávamos projetos de vanguarda. Mesmo só, continuei fazendo isso. A Iris Thompson, que era pianista e também escultora, foi destaque na primeira edição da Bienal de Arte de São Paulo, em 1951. Gravamos ela ao piano, com 94 anos de idade, e chamamos para cantar as músicas Gilberto Gil, Almir Sater, Luiz Melodia, Moraes Moreira, Na Ozetti...", destaca.
Digitalização
A Paraíso Discos foi criada por iniciativa de Belchior, no início dos anos 1980, e a parceria entre os dois durou até 1995, quando Jorge saiu da sociedade. O advogado conservou o acervo em seu escritório, ainda que não estivesse certo sobre o destino que lhe seria dado.
"Eu mantive contato com empresas que faziam esse trabalho de disponibilizar na internet, mas a maioria queria que entregasse o acervo digitalizado", explica, lembrando que, atualmente, em São Paulo, apenas dois estúdios possuem o maquinário capaz de digitalizar as antigas fitas, e cobrando cerca de R$ 300/ hora. "Como vou fazer isso em um patrimônio de mais de 1 mil fonogramas? Tinha que ter grana para investir", diz. O entrave só foi superado, em parte, recentemente, com parceria com a Genesis Music, empresa que se disponibilizou a fazer a conversão.
O processo, que está sendo realizada diretamente das fitas em 36, 24, 12 e 8 canais, no entanto, esbarra ainda na necessidade de se gerar um código de registros ISRC para cada fonograma, o que, segundo Mello, exige que para cada faixa digitalizada, estejam cadastrados os dados não só dos autores, como de cada músico que tocou na gravação. "Antigamente, utilizávamos um registro mais simples, que não era tão detalhado. Eu tenho que achar o baterista que gravou para mim na década de 1980, ou o cara que gravou flauta. É um desafio Hercúleo", reforça, adiantando que, até o momento, apenas seis dos 100 discos foram digitalizados. Ainda que o caminho seja longo, Jorge Mello garante que completará a missão e comemora, "enquanto estava na minha prateleira, estava morto. Agora virou um sinal".

Fábio Marques
Repórter

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